Carlos Alberto garimpa novos Dias

DiasValdelis Gubiã Antunes, do FutebolPR

Quem entra na sede do Matsubara, em Cambará, no interior do estado, dá de cara com uma galeria de fotos dos jogadores já revelados pelo clube. Entre elas, se destaca a de Carlos Alberto Dias. O jogador foi o grande expoente do “time japonês”. Meio-campista daqueles cada vez mais raros de se ver em campo - a bola parecia grudar em seus pés -, bastou Dias se projetar no clube da família Matsubara para ter o futebol brasileiro a seus pés.

Em 1988, veio para o Coritiba para iniciar um período de 4 anos que culminou com sua ida para a Seleção Brasileira. No Coxa, Carlos Alberto Dias formou ao lado de Vica, Osvaldo, Serginho, Chicão e Kazu, entre outros, um dos melhores times da história do Alviverde. Seu futebol intenso o levou para o Botafogo, na época comandado pelo bicheiro Emil Pinheiro. O jogador foi pivô de uma disputa judicial, na qual o Coritiba praticamente não lucrou com sua transferência para o alvinegro carioca.

No Botafogo, Dias já chegou sendo campeão estadual. Participou da conquista do bicampeonato, em 1990, e fez parte da excelente equipe alvinegra vice-campeã brasileira em 1992. Mas tudo começou em Brasília, no comecinho da década de 80. Carlos Alberto Dias jogava nos campos de terra de capital federal e foi descoberto por um olheiro que atendia pela apelido de Veneno. “Era o apelido dele, não lembro mais o nome. Ele me ajudou bastante no início da minha carreira e me levou para o Matsubara, que na época era uma referência nas categorias de base”, relembra.

Mudar de Brasília para a pequena Cambará não foi nada fácil para o jovem Carlos Alberto Dias. Com apenas 15 anos ele desembarcou no interior do Paraná e foi aprovado já na primeira semana de avaliação. Porém, a adaptação foi difícil, demorada e cheia de idas e vindas. “Eu cheguei acostumado com Brasília, cidade grande, e não me adaptei em Cambará. Voltei quatro vezes para a casa dos meus pais. Sentia saudades da família, tinha dificuldade em me adaptar. Mas tudo o que eu consegui hoje no futebol eu devo à minha mãe e meu pai, que me apoiavam e me mandavam de volta para Cambará”.

Dias só se adaptou em 1985. Daí seu futebol desabrochou. Naquele ano, levou os juniores do Matsubara ao título de campeão paranaense de juniores e foi o artilheiro da competição, com 8 gols. No ano seguinte, foi a grande revelação da Copa São Paulo e acabou convocado para a Seleção Brasileira Sub-20. Com a amarelinha, disputou o Torneio do Qatar, onde o Brasil ficou em 3.º lugar. Dias foi de novo o goleador da disputa. “É até curioso, pois eu fui artilheiro na prorrogação. Ganhamos de cinco e eu fiz quatro gols no tempo extra”, recorda.

Quando voltou ao Brasil, já tinha o seu passe vendido para o Bellmare Hiratsuka, do Japão. Foi a maior transação de categorias de base da época. “Hoje seria o equivalente a 15 milhões de reais”, avalia Dias. O meio-campista atuou no futebol japonês no período anterior à J-League, que só começaria em 1992. “Cheguei com 18 anos no Japão. No início foi complicado. A língua era difícil e não tinha intérprete na época. Fiz um curso para aprender o idioma. Hoje eu falo muito bem o japonês”, revela.

Máquina do Coxa

Depois de atuar entre 1986 e 1988 no Japão, Dias voltou para o futebol paranaense para jogar no Coritiba. Em 1989, o Coxa ganhou o Paranaense de ponta a ponta. O técnico era Edu Coimbra, que escalava o time com poucos defensores. A equipe era toda ataque, chegando a ganhar vários jogos de goleada. “Aquele time do Coritiba era muito bom. Entrosadíssimo”, conta Dias.

Um jogo que marcou sua passagem pelo Alviverde aconteceu na Vila Capanema, contra o Colorado. O 1.º tempo terminou com os donos da casa vencendo por 3 x 0. No intervalo, Edu Coimbra deu um puxão de orelhas no elenco.”O Edu falou que o nosso time era muito superior. E um olhou para o outro e falou: vamos jogar? Vamos!”. Resultado: o Coxa foi buscar o empate e daquela partida em diante engatou uma seqüência de vitórias que levaria o time ao título estadual de 1989. “O nosso time era muito bom. Ganhamos aquele Campeonato Paranaense com um pé nas costas”, compara.

Naquele ano, porém, um erro de estratégia dos dirigentes do Coritiba impediu aquele supertime de colocar mais uma estrela dourada na camisa alviverde. No Brasileiro de 1989, o Coxa dividia com o Vasco o 1º lugar de seu grupo. A decisão se daria na rodada em que o Coritiba enfrentaria o Santos e o alvinegro carioca o Sport Recife. O então vice de futebol do clube cruzmaltino, Eurico Miranda, manobrou para que a CBF que antecipasse a data do jogo do Coxa. Assim o Vasco jogaria sabendo qual resultado precisaria para classificar.

Bayard Osna, presidente do Coritiba, não concordou com o privilégio dado ao Vasco e conseguiu uma liminar na Justiça Comum para que o Coxa jogasse na mesma data e horário do jogo do Vasco. Assim, o Coritiba decidiu adiar a viagem para Juiz de Fora (MG), onde enfrentaria o Peixe. Acontece que a CBF, na calada da noite, cassou a liminar e determinou que a data e horário do jogo fossem mantidos. O Coxa, como não estava lá na data marcada, perdeu por WO e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, rebaixou o clube por ato administrativo. “Estava todo mundo pronto para viajar. O jogo era contra o Santos era em Juiz de Fora. Daí veio a liminar e ninguém viajou. No final todo mundo sabe o que aconteceu: o Coritiba acabou caindo para a Segunda Divisão”, lamenta Dias.

O meio-campistas acredita que se o Coritiba tivesse ido jogar teria hoje duas estrelas douradas na camisa. “Se não fosse aquilo, nós iríamos muito longe. Não perderíamos para o Santos lá, mas é nunca. Nós teríamos com certeza brigado pelo título do Brasileiro. Mas teve aquela problema todo e aconteceu aquela tragédia”, avalia Dias, que revela ter virado coxa-branca. “Hoje eu tenho o Coritiba com o meu time de coração. Por tudo o que clube me proporcionou, pelo espaço que me deu, tenho um carinho muito grande pelo Coxa”, afirma.

O Rio a seus pés

Com o Coritiba rebaixado, Carlos Alberto Dias foi assediado pelo Botafogo. Na época, o clube carioca era bancado pelo bicheiro Emil Pinheiro. Através de uma manobra jurídica, o dirigente conseguiu praticamente tirar o meio-campista sem ônus do Coxa. Em 1990, o jogador desembarcou em General Severiano ganhar o bicampeonato carioca. “Fiz o gol do título contra o Vasco”, vangloria-se. Dias ficou no alvinegro até 1992, quando foi vice-campeão brasileiro.

Em virtude de suas boas atuações, o meio-campista foi convocado para a disputa de uma partida da Seleção contra a Finlândia, em abril de 1992. Esta foi a única vez que Dias vestiu a camisa da Seleção Brasileira principal.

No ano seguinte, ele foi para o Vasco, onde foi campeão carioca invicto em 1992 e bi em 1993. Ainda em 1993 jogou o Brasileiro pelo Grêmio e no ano seguinte voltou ao Rio para defender o Flamengo. Perto do final dos 90, mais exatamente em 1998, Dias ainda defenderia o Fluminense, fechando seu ciclo no futebol carioca vestindo a camisa dos quatro grandes clubes do Rio.

Gol histórico

Em 1995, Dias deu um tempo ao futebol carioca e voltou para o Japão para fazer história. Ele marcou aquele que até hoje é considerado o gol mais bonito da J-League, defendendo o Shimizu S-Pulse. Desta vez ele não teve nenhum problema de adaptação, poisjá dominava a língua e o clube estava recheado de brasileiros. “No Shimizu S-Pulse tinha o Ronaldão, zagueiro; o Sidimar, goleiro, e Toninho, zagueiro que jogou no Palmeiras e na Portuguesa”, relembra.

O golaço saiu no jogo contra o Yokohama Flugels - time que mais parecia a Seleção Brasileira, pois tinha Evair, César Sampaio e Zinho. Carlos Alberto Dias relata o gol: “Eu fiz um gol do meio-campo. Foi o gol que o Pelé não fez. O lance ficou passando durante quatro meses na televisão japonesa. Naquele ano fiz 18 gols na temporada”, relembra.

Em 1996, depois de se recuperar de uma lesão de tornozelo, Dias voltou ao Brasil e assinou com o Paraná Clube. Naquele ano ganhou o Campeonato Paranaense. No ano seguinte, voltaria para o Japão para vestir a camisa do Tokyo Verdy. Em 1999, retornou ao Tricolor junto com o atacante Valdeir, o The Flash, reeditando a dupla que fez sucesso no Botafogo. Dias levou o Paraná a decidir a Copa Sul, em 1999, contra o Grêmio. O Tricolor perdeu o primeiro jogo por 2 x 1, em Porto Alegre, venceu o segundopor 2 x 0, no Couto Pereira, mas foi derrotado na finalíssima por 1 x 0, em um Pinheirão lotado por 40 mil torcedores.

Operário da bola

Após a quarta passagem no Japão, onde atuou por mais dois anos - de 2002 a 2004 -, Dias voltou para o Brasil decidido a encerrar a carreira. Mas foi convidado pelo amigo Ricardo Pinto a jogar pelo Operário de Ponta Grossa. No Fantasma encontrou veteranos como Marcos Gaúcho, Leomar e Ednélson, com quem jogou no Paraná. “Fui mais para dar uma força para o Ricardo Pinto, que era o treinador. Foi mais por amizade”, conta. Pelo Operário, disputou a Divisão de Acesso do Campeonato Paranaense e levou a equipe até as finais, mas não conseguir devolver o clube à elite paranaense. “Ganhamos o primeiro jogo por 2 x 0 e perdemos a partida de volta por 3 x 0. Foi um jogo às três horas da tarde e tinha um sol para cada um”, lamenta. Em 2006, Dias retornou ao Operário, mas as pernas já não obedeciam mais. Foi aí que, aos 39 anos, decidiu encerrar a carreira.

Carlos Alberto Dias atualmente estuda para se tornar agente Fifa, em 2008, e negocia o arrendamento do Clube Atlético Pitanguense. “É tudo totalmente diferente da carreira de jogador. Antes só treinava e jogava. Agora tem que sentar, observar, participar de reuniões, analisar bem o jogador, a conduta dele dentro e fora de campo”, compara. Para Dias, seu trabalho atual se compara ao de um garimpeiro. “Busco um diamante, busco um novo Carlos Alberto Dias”, afirma.

Carlos Alberto Dias

Nome: Carlos Alberto Costa Dias
Data e local de nascimento: 5/5/1967, em Brasília (DF)
Clubes onde atuou: Matsubara (1983-1985), Bellmare Hiratsuka-JAP (1986-1987), Coritiba (1988-1989, 1998), Botafogo (1990-1992), Vasco (1992-1993), Grêmio (1993), Flamengo (1994), Shimizu S-Pulse-JAP (1995, 2001), Paraná Clube (1996, 1999-2000), Tokyo Verdy (1997), Fluminense (1998), Shizuoka-JAP (2002-2004) e Operário de Ponta Grossa (2005-2006)
Títulos:
Paranaense (1989 e 1996), Carioca (1990, 1992 e 1993), Copa da Ásia (1997 e 1998)

Uma Cornetagem para “Carlos Alberto garimpa novos Dias”

  1. ah carlos alberto…vc podia ser olheiro do operario ..descobrir outro craque como vc para nos ajudar

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