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Direito à vaga

Coluna do Altayr Bail, publicada no seu Blog no JM News

Um ano termina; o outro começa e o assunto que envolve o Operário Ferroviário no campeonato paranaense não se esgota. Trocando mensagens de Boas Festas com o amigo David Aroldo Nascimento, ele indagou a razão pela qual a vaga deixada pelo Adap/Galo não voltou para a nossa cidade, já que ela foi repassada ao time de Campo Mourão (na época) pelo Ponta Grossa Esporte Clube. A pergunta é pertinente e merece reflexão. E até uma possível explicação.

Todos estão lembrados que o presidente Antonio Luiz Mikulis reuniu a imprensa em seu restaurante para anunciar a cessão do direito de continuar disputando a série A por total falta de apoio dos empresários da cidade. E disse que não estava levando nenhuma vantagem financeira, pois a Adap jogaria o campeonato do ano seguinte vinculando o nome do Ponta Grossa. Uma temporada depois, o então presidente Moura baixou um ato administrativo extinguindo o nome do nosso representante. A partir daí, o Ponta Grossa Esporte Clube deixou de existir como time de futebol. A Adap ficou isolada na disputa e acabou por conseguir, dois anos depois, o vice-campeonato estadual. Hoje, por mais que desejássemos ressuscitar o Ponta Grossa, não haveria esta possibilidade.

Com o abandono da Adap em 2008, depois de se juntar ao Galo de Maringá, o mais racional, lembra o amigo David, seria a FPF devolver a vaga à nossa cidade. Neste caso, o Operário assumiria o direito de nos representar, pois é o único clube profissional no Município. O raciocínio é lógico e tem razão de existir. Mesmo que o Ponta Grossa Esporte Clube não exista mais perante a Federação, a cidade poderia reivindicar o direito à vaga se tivesse REPRESENTATIVIDADE. Ela não existe nem na esfera política e muito menos na futebolística.

O Mikulis fundou o Ponta Grossa e sem apoio da cidade tinha todo o direito de fazer o que fez. De qualquer maneira, fica a lembrança do amigo de tantos anos e que já deu grandes contribuições às administrações alvinegras, sem nada receber e sem nunca deixar de torcer pelo futebol da cidade. O David está certo. Errado é o comportamento daqueles que deveriam se preocupar com nosso futebol.

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O futebol no trilho do trem

Foto: Henry Mileo/Gazeta do Povo

Foto: Henry Mileo/Gazeta do Povo

Guilherme Voitch – Gazeta do Povo

Trazida pelos britânicos, modalidade conquistou os brasileiros com a expansão das ferrovias

Em 1895, Charles Miller, filho de pai escocês e mãe brasileira de origem inglesa, promovia o primeiro jogo de futebol no país que é referência no esporte. Naquela que é considerada a primeira partida registrada disputada em território nacional, o time da São Paulo Railway Co. ganhou de 4 a 2 da equipe da Cia. de Gás, em 1895. O futebol nascia em uma partida promovida pelo funcionário de uma companhia inglesa de ferrovias e ganha por ferroviários.

Nada mais significativo. Para muitos, aliás, o futebol já vinha sendo praticado anos antes. “Possivelmente ingleses e escoceses, que trabalhavam na construção de linhas férreas, já disputavam partidas de futebol anteriormente”, diz o publicitário Ernani Buchmann, autor do livro Quando o Futebol Andava de Trem. Datas à parte, o fato é que a partir de seu nascimento, o futebol sempre caminhou de mãos dadas com as ferrovias. Por basicamente duas razões. A maioria dos engenheiros e técnicos que vinha da Europa eram ingleses, fãs de rugby, críquete e de futebol. Entre os três, o mais fácil de ser praticado era o futebol. Com uma bola e um grupo de homens dispostos a correr atrás dela, a diversão era garantida. Ocorre que o esporte logo deixou de ser artigo reservado aos europeus.

Aí surge o segundo motivo. As linhas férreas iam desbravando o interior. Trabalhadores brasileiros eram contratados pelas companhias e aprendiam o esporte. Mesmo quem não era funcionário começava a assistir às partidas e virava também um jogador. “O futebol pegou carona na expansão promovida com os trens”, diz Buchmann.

A expansão resultou em uma centenas de clubes formados a partir das “peladas” dos ferroviários. Entre eles está o clube de futebol mais antigo do Brasil, o Sport Club Rio Grande, que nasceu a partir da união das colônias alemãs, italianas e portuguesas e conseguiu seu primeiro estádio graças a um empréstimo da companhia ferroviária Compagnie Auxiliare de Chemins de Fer du Brésil. No Paraná, a história não foi diferente: nasceram na linha de trem o Ferroviário Esporte Clube, de União da Vitória; o Clube Atlético Ferroviário, de Morretes; o Ferroviário Esporte Clube, de Wenceslau Braz; e o Esporte Clube Recreativo Ferroviário, de Jaguariaíva. O mais representativo dos times surgidos a partir das linhas férreas foi o Clube Atlético Ferroviário, que junto a Coritiba e Atlético formou, durante muito tempo, o trio de ferro do futebol da capital. Criado como time dos funcionários da Rede Ferroviária, o Boca-Negra, como era conhecido, chegou a ter o estádio mais moderno de Curitiba e palco da Copa do Mundo de 1950, o Durival Britto. Atualmente o estádio pertence ao Paraná Clube, originado a partir de fusões do Ferroviário com outros clubes da capital.

Com o sucateamento da malha ferroviária brasileira como consequência da opção pelo transporte rodoviário, os clubes da linha férrea foram agonizando junto com a Rede Ferroviária. Muitos sumiram, se fundiram e alguns resistem, sem a força de antes. É o caso do Operário Ferroviário, de Ponta Grossa, que depende de decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça Desportiva para ser confirmado no Campeonato Paranaense. Porém, para o presidente do clube, Carlos Roberto Iurk, o Operário “está vivo, pronto para disputar a segunda divisão do Paranaense”. “Toda nossa estrutura, tanto social como de futebol, é oriunda da Rede Ferroviária”, lembra. “Ela vai ser reformada e ampliada. O nome do nosso estádio é em homenagem ao supervisor da rede em Ponta Grossa. Temos hoje cerca de 400 sócios e muitos deles são descendentes dos ferroviários que trabalhavam na rede e fundaram a equipe.”

Linhas foram indutoras de crescimento

Mais do que mães do futebol paranaense, as ferrovias que cruzaram o Paraná ajudaram a definir a cara do estado. “A ligação da capital com Paranaguá era o trem”, diz o monitor-chefe do Museu Rodoviário de Curitiba, Caio Vendramin. Para ele, Curitiba ganhou econômica e socialmente com a estrada de ferro. “Por onde passavam as linhas férreas, eram construídos hospitais, teatros e escolas”, lembra o ex-chefe da Rede Ferroviária Federal Paulo Sidnei Carreiro, citando Arapoti como exemplo de cidade que se desenvolveu em torno da estação ferroviária. “Por uma questão política, a linha do trem acabou passando no meio da propriedade de um determinado fazendeiro. Ali não havia nenhuma habitação, mas como a estação foi construída ali, aos poucos começou a se formar um núcleo urbano ao redor da estação. Assim surgiu a cidade.”